Perante o colapso da civilizaçã industrial: o olhar de Manuel Casal Lodeiro

* Texto para o lançamento na feira do livro da Corunha


Levanta-se o pano e o que vemos é uma mulher que alugou vários solares na grande maçã de New York. Embora pareça mentira, não pensa especular nem arranjar negócio nenhum. Decidiu semear trigo e há de passear pela sua leira com seu cajado, como qualquer camponesa. Essa mulher é uma artista plástica contemporânea. Não se importa de se as suas obras cotizam caras no mercado da arte, de maneira que talvez não se importe também não de se pronunciamos hoje cá o seu nome. Em todo o caso, chama-se Agnes Denes e em 1982 performava uma obra singular: O campo de trigo. Subtítulo A confrontation.



A arte consiste para ela no ofício que a natureza realiza do começo dos tempos: fazer medrar a semente e dourar as espigas. Porém, era tal a quantidade de metais pesados do subsolo que esse cereal, após a colheita, não conseguiu que as autoridades sanitárias permitissem que se tornasse artigo de consumo. Cultivar trigo no centro de Nova York é uma excentricidade, uma provocação... e com isso basta, ainda que não dê de comer aos esfomeados. É bastante com que a estátua da liberdade fique abafada de pão.


         Decido-me por esta imagem plástica da confrontação do campo de trigo para apresentar nesta tarde de Feira do livro A esquerda perante o colapso da civilização industrial de Manuel Casal Lodeiro na versão para o espanhol que se vem de editar sob chancela de La oveja roja. Faço assim para provocar à leitura porque este não é um livro fácil, desses que se vendem nas feiras. De entrada estamos perante um ensaio, um livro então relativamente denso, que nem sempre é o melhor para a praia. Primeiro aviso: estamos perante as ideias, essas senhoras difíceis de quem tanto teme o poder: quem é? Pergunta o poder. Somos nós, as ideias, respondem elas. Podem entrar, se permanecerem caladas. Segundo aviso: estamos perante ideias das mais incómodas. O livro de Manuel Casal Lodeiro –Manu Casdeiro como também é chamado nas redes sociais– invoca um conceito incómodo na civilização da tecnologia: o do decrescimento.

         Terceiro aviso: se quiserem permanecer tranquilamente onde estão, se quiserem não pensar, não leiam este livro. Porque se o abrirem, ao percorrerem as páginas, hão de encontrar um arsenal de argumentos suficiente como para mexer a comodidade em que nos movemos, como para convocá-los ao fim duma etapa e ao início da seguinte.

         Quando há já oito anos eu publicava um outro ensaio: O natural é político, algum crítico saudava-me desde esse faro que é La voz de Galicia para dizer Moure clama no deserto. E tinha razão. As dificuldades para se abrir passo uma conceção rebelde da ecologia e do respeito pela natureza na sua integridade são evidentes. Mas pertencemos a essa tribo: a das pessoas que gostam de dar voltas aos problemas para lhes encontrar alguma solução ou para estar prestes em caso de que os acontecimentos se adiantem e nos caiam todos por cima. Nestes anos, plumas eminentes da Galiza, como Carlos Taibo, ou Xoán Ramón Doldán, para além do próprio Manuel Casal Lodeiro têm dado vozes de alarma bem argumentadas... e pouco sucedidas. No território espanhol, Xosé Manuel Naredo, Jorge Reichmann ou Marta Tafalla incorporam a esse panorama visões informadas da economia, da sociologia ou da ética. Às vezes também se atrevem a animar com esse fundo ideológico do decrescimento relatos, poesia ou romances inteiros. O tema é todo um desafio porque questiona o nosso mundo mas também questiona os limites das nossas ideologias, também das transformadoras. 

No momento histórico que estamos a viver, quando a crise sistémica do capitalismo demanda acharmos novas vias para instaurar sociedades justas e livres, a reflexão ecológica faz-se mais necessária que nunca. Uma sociedade fundamentada na exploração da natureza e das pessoas e na mais agressiva competência só pode acabar por destruir o planeta. A ciência, por muito asséptica que quiser construir-se, leva décadas advertindo de que a mudança induzida no clima, o buraco na capa de ozônio, o crescimento desmedido das urbes e o modelo abusivo de consumo energético são problemas tão urgentes que podem desembocar numa catástrofe. E, se a vida tal e como a conhecemos está ameaçada, cumprirá remexer as consciências dormidas para revisarmos as nossas relações com o médio natural. A questão exige um alto nível de compromisso político, ético e individual.

         Manuel Casal Lodeiro neste livro que não devem ler, demonstra uma atitude de forte compromisso, que não se satisfaz num projeto para aplicar desde as administrações e devo confessar que concordo plenamente. Acho imprescindível criar uma cultura política que permita às pessoas participarem autonomamente nas mudanças econômicas, socio-culturais e de sensibilidade vinculadas à nossa relação com a natureza. Promover modos de vida alternativos é tanto como melhorarmos a qualidade da nossa existência, individual e coletiva, e contribuirmos a salvar o planeta. Mas isso implica deslocar toda a nossa imaginação e a nossa força de trabalho para o serviço deste objetivo prioritário, repensando o papel da ciência e a tecnologia, os hábitos de consumo, o modelo de lazer ou os transportes. Noutras palavras, a situação demanda que nos atrevamos a modificar as nossas existências para um benefício conjunto, carregando com uma boa dose de autocrítica e assumindo que muitos dos nossos costumes podem precisar revisão. Porque, noutro caso, confiando apenas nas medidas "verdes" da política institucional, não temos muito tempo por diante. Não podemos esperar leis promulgadas pelos parlamentos numa direção ecologicamente transformadora sabendo que o poder tende a estabelecer cumplicidades com o capital e a aceitar a "sustentabilidade" no sentido superficial de maquilhagem que não questione a ordem de cousas estabelecida. A transformação social, necessária, surgirá de construirmos uma cultura política ecológica de base popular, amparada no desejo coletivo de resistirmos frente à globalização e, sobretudo, marcadamente decrescentista.


Boa parte da povoação, anestesiada pelo consumismo e as pressas que fazem parte essencial da nossa cultura, considerará as propostas de Casal Lodeiro como mais um manual de medioambientalismo. A conceção, bem extensa, de que a sensibilidade ecológica é uma teima de minorias mais ou menos contestatárias ou declaradamente hippies e que não correspondem com o núcleo da política – destinada a administrar a riqueza e a proporcionar postos de trabalho –  deve ser erradicada. Nem este é mais um manual, nem é medioambientalista, nesse sentido de domesticado pelo poder, de movimento light que confia em que reciclando e comprando produtos com etiqueta de verdes já cumprimos com as nossas obrigas. Decidirmos a energia que devemos usar -quanta e qual-, igual que modificar as nossas atitudes para o uso da água, a quantidade de carne que comemos, ou o valor imaterial da paisagem é revoltar-se contra uma ideologia destrutiva, que se instalou em Ocidente com o capitalismo e que nos últimos anos está a assolar o planeta inteiro, enquanto se populariza a ideia de que nada chega: o que podemos chamar o simulacro da escassez. Porém, tirando à luz os agentes interessados em gerar essa insatisfação, é possível decidir quais dessas supostas necessidades são, na realidade, supérfluas para, a seguir, prescindir delas. Limpamente.

Após ternos explicado num volume prévio que o petróleo tem dias contados, agora convoca-nos para a criação de espaços políticos com massa crítica. Nos inícios do século XXI, o impacto ambiental do sistema energético galego é fortíssimo. Embora sejamos uma nação pequena e não mui rica, contribuímos consideravelmente ao problema global do aquecimento porque a energia que consumimos depende enormemente ainda da queima de combustíveis fósseis e o nosso consumo de energia per capita é bem superior à quantidade que o Informe sobre o Desenvolvimento Humano estabelece para uma vida digna. Isso significa que os mitos do país apegado sentimentalmente à aldeia, bucólico e não industrializado podem questionar-se: vivemos como o ocidente consumista e temos que nos parar a reflexionar. Gosto de que, por fim, se encete um projeto como este desde Galiza porque as nações não são unicamente laços históricos: também são espaços físicos povoados por bichos que se movem dum lado a outro, paisagens e materiais inertes que nos constituem e para os que às vezes não reservamos outra palavra, mas “recursos”, bem indicativa de estarmos a participar da secular óptica de domínio que estas páginas do guia também querem denunciar.

Casal Lodeiro tenta preparar-nos para habitar um mundo distinto, um mundo onde não é aceitável mantermos aquecimento doméstico que nos permita estar em camisola de manga curta em janeiro, um mundo onde não se veja lógico apanhar o carro e marchar onde queiramos sem valorar os custes desse movimento. As inovações técnicas não solucionarão todos os nossos problemas se a energia que nos afixemos a gastar alegremente não vai durar e as fontes renováveis implicam outros ritmos, outro jeito de vida. Neste ponto começamos a pensar no planeta como um conjunto de seres envolvidos na biosfera -e não sob a imagem de corpos ao nosso serviço que foi expandida desde o cristianismo até a expansão do capitalismo-, adotando medidas concretas, como limitar o uso da energia, ou restringir as cabeças de gado, que exigem demasiada terra e contribuem ao aquecimento para satisfazer um consumo de proteínas insano e desaforado. A agricultura ecológica fala de cultivar a terra com arado, isto é, o mais superficialmente possível para não a esgotar, ou de que os animais possam viver em liberdade para contribuir à vida com os seus serviços ou produtos numa relação entranhada. Porque, consumindo-os ou não, que nisto há muito que debater, conviria evitar a sua conversão em simples mercancias. Neste contexto, cumpre também encher com formas de prazer alternativo parte do tempo que hoje investimos em consumir, primando atividades lentas, que reduzem o tempo disponível para outras mais contaminantes. Igualmente, comprarmos produtos caros de boa qualidade ou bons para a saúde, como os produtos biológicos, impede que gastemos em produtos nocivos e contaminantes, que alimentam a nossa vontade de consumir mais. Porque a atual obsessão pelo consumo é o principal problema e, nesse sentido, adotarmos uma existência frugal, que se contente com o necessário, supõe um problema para o capital, para além de criar indivíduos independentes e livres.  Podemos fazer que outro mundo seja possível.

Quando fizemos o lançamento da versão em galego deste livro em Compostela, o ato durou mais de 3 horas. Este é o quarto aviso. Livros como este marcam os limites da esquerda. Eu perguntei naquele ato quantos secretários gerais de organizações marxistas acudiram. Era uma capatatio benevolentiae porque eu, que os conheço todos, já sabia que não estavam. Digamos que o mapa da esquerda, bem que removido nos últimos anos, continua a manter o grupo ortodoxo ML e os heterodoxos que vou chamar hippies comeflores. Ambos os grupos julgam que são mutuamente irreconciliáveis. E este é o principal problema. Os secretários gerais MLs não hão de ler este livro. Continuam com a defensa dos setores produtivos e consideram que o decrescimento é um costume burguês, próprio de quem tem tudo. Os hippies come-flores, no entanto, sim leem este livro, mas são menos eficazes na hora de se organizarem: tendem a improvisar ou a irem à solta. Por isso eu, quando recebi de Manuel Casal Lodeiro, a honra de prologar o seu livro escrevi umas páginas como prólogo sob o título: Descrescimento também para marxistas.

Se algo ainda pode transformar este mundo são as ideias. Revisem, portanto, o meu primeiro aviso e acheguem-se ao livro. As ideias podem mudar o que há por algo melhor mas para isso cumpre enfrentar-se a elas com uma máquina inferencial, não com prejuíços. Anos atrás, Rajoi dizia que o seu curmão de Sevilla contava vai lá saber qué sobre a mudança climática. Hoje todas sabemos que é evidente. Igual que é evidente que comemos alimentos agredidos pela indústria farmacêutica, que respiramos ar de pior qualidade, que moramos em urbes inabitáveis ou que as nossas vidas apressadas podiam ganhar em qualidade com outros usos do tempo. E que tudo isto é política também. Quando as ideias marxista-leninistas sobre a propriedade foram formuladas, tinham um precedente narrativa: o relato cristiano já dizia que antes passa o camelo por uma agulha que entra um rico nos céus. Agora que as ideias decrescentistas têm certo pulo, também há um precedente narrativo: os relatos de ficção científica que auguravam o fim do mundo conhecido. Uns e outros relatos marcam os limites do que queremos transformar.

Retirem os avisos porque eram uma captatio benevolentiae para descridos. Leiam este livro e, se não concordarem, entrem em diálogo com o seu autor. O mundo está em marcha e a literatura não está para o deter, mas para impulsar o fio do pensamento.
Talvez alguns pensem que não deveria apresentar-se este livro, em espanhol, numa feira do livro galega. Talvez eu mesma tenha tido algum problema para aceitar estar cá. Mas é positivo que as editoras espanholas saibam que estamos e que podemos trabalhar com tanta dignidade como para sermos traduzidas. A literatura galega nasceu no ensaio. Sem os milhares de assinantes que, na Galiza rural dos primeiros anos do século XX, promoveram o jornal A nossa terra, sem os projetos editoriais das irmandades da fala ou de Angel Casal, assassinado pelo fascismo, não teríamos conservado a língua, que se manteve precisamente através da criação de ideias próprias em galego e para o mundo (logicamente versionadas depois em diferentes línguas). Mais um motivo para ler: dignificar a tarefa calada, de formiguinha de autores como Manuel Casal Lodeiro.

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